KIA SOUL EV EUROPEAN ELECTRIC TOUR | CRÓNICA BY GLÓRIA & MANOLO #11

Thomas, a raposa do Tirol

Honningsvåg. Estamos no norte da Noruega a 34 quilómetros de North Cape. Da janela do nosso quarto vejo o mundo, é incrível como o mundo, por vezes, se torna tão pequeno, como se encaixa nos nossos horizontes. São quatro e meia da manhã, a noite está dia e não consigo dormir. São as noites brancas da Escandinávia como eram brancas as noites que “Mikha” Dostoiévski escreveu, como ninguém, sobre São Petersburgo. Nestas noites há sempre luz, uma claridade que convida a não dormir. Como de noite ainda é dia toda a gente fica acordada até mais tarde, toda a gente acorda cedo, toda a gente dorme pouco e as lojas abrem às 6 horas da manhã. Talvez seja uma forma de os noruegueses se vingarem dos invernos violentos e escuros como breu. Nesta altura do ano, a Lua prepara-se para “hibernar”; os noruegueses adoram esta época, na qual o sol se mantém acima da linha do horizonte durante 24 horas.

E é muito interessante observar como um povo aproveita todos os bocadinhos de sol que a natureza lhe dá, sem jeremiadas nem prognósticos fúteis. As senhoras sacam dos biquinis, eles, em tronco nu (nós de blusão) pintam as vedações, arranjam os solários de jardim e fazem churrascos. Nos supermercados existe uma panóplia incrível de churrasqueiras e acessórios.

A Noruega, não é o destino perfeito porque é caro. O nível de vida está acima do nosso. O país não faz parte da União Europeia mas é como se fizesse. Os noruegueses já fizeram alguns referendos sobre a eventual integração na União Europeia e a conclusão é sempre a mesma, “Não há necessidade”, que é como quem diz: bebemos o leite, mas não alimentamos a vaca. O país é rico, tem explorações de petróleo e rendimentos muito superiores aos portugueses. Mas à parte disso, há muito para ver e explorar na Noruega.

Nos últimos dois dias, confrontámo-nos com a Escandinávia profunda, sem internet e sem postos rápidos de carga. E esta última faz-me lembrar um episódio, aqui há uns anos, numa concentração de veículos 4×4 em Inglaterra, mais precisamente em Billing, onde um inglês de Southampton me dizia com alguma graça “Não sei porque é que os portugueses bebem cerveja de 33 cl quando há de meio litro!”. Realmente, não sei porque é que fazem postos públicos de carga lenta, quando existem rápidos e bem mais catitas…

O que é certo é que nos últimos dois dias fomos sendo confrontados com a necessidade de tomar algumas decisões “arriscadas”. Se vamos por ali, o percurso é mais curto (dentro da nossa autonomia) mas só vamos encontrar um posto de carga lenta (2-5 kW) e, temos o dia estragado. Se vamos por acolá, o percurso é mais longo, extravasa a nossa autonomia, mas se conseguirmos lá chegar temos à nossa espera um posto de carregamento “Acelerado” (16-30  kW) que que nos proporciona 80% da carga, em cerca de 4 horas e meia. Escusado será dizer, que os nossos preferidos são os postos de carga rápida (30-135 kW), onde em média demoramos entre 25 e 35 minutos para carregar 80% da bateria. Cool!

Em Palojärvi, na Finlândia, tínhamos um posto de carga muito perto da fronteira da Noruega. A aplicação “CargeMap” levou-nos até à linha de fronteira, onde chegamos com 8 km de autonomia. Não havia nenhum carregador. Havia umas tomadas públicas de 220 volts e a nossa primeira reação foi  ligar a ficha à tomada e pensarmos depois. Nestas coisas temos que ser pragmáticos. Do lado da Noruega, o posto de carga mais perto ficava em Karasjok, a cerca de 480 km e voltar para trás não fazia qualquer sentido. O local não era agradável e só nos restava uma seca “das antigas” para carregar a bateria do nosso Soul EV, desejoso de chegar ao Cabo Norte.

Ainda estava de roda dos cabos, apareceu um casal de polícias, que nos disse que o local não era sitio para turistas e que não podíamos estar ali. Mostrei-lhe a aplicação que referenciava aquele sítio como posto público de carga, supliquei que precisava de energia, mas nada. Tínhamos que sair dali. Era uma área exclusiva das autoridades norueguesas. Até que a senhora-agente lembrou-se que havia um posto de carga a 6 km dali, do lado da Finlândia. Voltamos para trás com o coração nas mãos à procura do dito cujo. E, na verdade, era o mesmo referenciado pela Chargemap só que tinha as coordenadas erradas. Acabei por lhes enviar a correção por e-mail e uma fotografia do nosso Soul EV que, agora, é a foto que ilustra o ponto de carga. A Chargemaps, agradeceu.

De Karasjok a Honnigsvåg, Noruega, são cerca de 246 km. O único posto de carregamento que existe pelo caminho é o do Hotel Olderfjord, em Russenes, exclusivo da marca americana. A nossa única hipótese era alcançar o posto de carga do hotel Scandid Honningsvåg, que tinha dois carregadores semi-acelerados (5-16 kW) e “rezar” que não estivessem ocupados, para poder carregar, tranquilamente, durante a noite.

Mais uma vez, chegamos ao posto de carga, sem indicador de quilómetros de autonomia, só apareciam tracinhos, o que significa que tínhamos menos de 5 quilómetros de autonomia. Fizemos uma gestão impecável e o Soul EV portou-se ao mais alto nível, subindo as estradas de montanha sempre em modo ECO, sem necessidade de recorrer ao modo POWER aproveitando as descidas para regenerar.

Estamos a 34 km do nosso objetivo: alcançar o Cabo Norte de carro elétrico! Uma viagem inédita, um desafio, uma prova de superação. O título desta crónica não tem nada a ver com o conteúdo, é verdade. Um título catita seria: “Estamos muito perto” ou “Quase, quase lá” ou sei lá o quê, mas não. Thomas é um jovem que saiu do Tirol suíço para fazer a mesma viagem que nós, mas de bicicleta. Cruzamo-nos duas vezes e conversamos. Como levava um rabo-de-raposa como adorno na sua bilke, achei bem homenageá-lo com este título. No fundo, é uma homenagem a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, arriscam e aceitam desafios intrínsecos de superação.

Como escreveu Ernest Hemingway: “Se não arriscas, a tua vida é uma frustração”. Só isso.

Álbum de fotografias

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#TablierMagazine

Nota do editor: Enquanto editamos os artigos, preparando vídeos e fotografias, alinhando o material que recebemos, vamos seguindo via CarTrack o trajeto dos nossos Amigos! Isto para vos dizer: Done! Foi bom perceber que o objetivo principal da viagem da Glória e do Manolo está cumprido. Para eles, os nossos Parabéns, um forte abraço a cada um, já à espera do encontro logo que possível. Tem sido, para nós, também uma prova de superação acompanhar estes aventureiros. A ligação é forte e perdurará, já que fomos com eles, e voltaremos! A esta hora, já estão aqui:

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